Relacionamento é a vida em si

A qualidade das nossas conexões e relações determina, em grande parte, a qualidade da nossa paz interior.

Viver e relacionar-se caminham juntos. Somos seres sociais e interdependentes, e as relações humanas permeiam a vida o tempo todo. A complexidade dos relacionamentos humanos é um campo tão vasto que sempre será motivo de estudo e pesquisas, pois a partir de cada olhar único, poderemos compreender diversos aspectos ligados às relações humanas.

Mas qual a qualidade dessas relações humanas? O quão profunda e verdadeiras elas são? O quanto elas nos trazem um sentido real na existência?

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Não é o tempo que fortalece as relações, mas sim a qualidade do afeto que habita o tempo.

Os relacionamentos podem ser usados como ferramentas importantíssimas de autoconhecimento, de realização pessoal e social. Nos estudos científicos sobre felicidade e bem-estar, as pessoas que realmente desenvolvem uma maturidade na relação conjugal e/ou em amizades profundas e verdadeiras são consideradas estatisticamente mais felizes e plenas do que os indivíduos que optam por não se relacionar mais intimamente, evitando vínculos e conexões mais profundas.

A ciência da felicidade (feliciência) coloca em primeiro lugar a qualidade dos relacionamentos como o fator fundamental e primordial para a felicidade humana.

A criança ferida

Começamos a nos relacionar intensamente desde o útero de nossa mãe até os dias de hoje, com uma criança interior viva em nós. Uma criança que, muitas vezes, em sua pureza, inocência e encantamentos, se perde na loucura e caos do mundo adulto.

A criança cria, o adulto adultera.

A criança é totalmente suscetível e vulnerável as inúmeras situações diárias do viver. Seu aprendizado é imenso e super disponível, funcionando como uma “tela em branco” e absorvendo a maioria dos ensinamentos sobre crenças, valores e princípios vindos diretamente de nossos pais, família e sociedade.

Existe uma grande possibilidade desta criança em fase de crescimento ter um desenvolvimento perceptivo e cognitivo bem distorcido do que realmente é a vida, suas relações e afetos humanos.

Todos nós, em maior ou menor grau, tivemos muitas experiências traumáticas no passado e estas memórias ficam registradas em nosso corpo, mente, emoções e comportamentos.

Assim, fazemos de tudo para não vivenciá-las novamente através dos mecanismos de defesa: orgulho, negação, evitação, repressão, racionalização, entre outros.

Utilizamos “máscaras’ ininterruptas para não entrar em contato com esta memórias, e neste recalque, surgem várias patologias, neuroses e transtornos mentais.

O inconsciente é atemporal e guarda traumas profundos que aconteceram há décadas na infância e, quando surge algo parecido no presente, existe a possibilidade de uma resposta reativa e intensa, despertando “gatilhos” aos quais o indivíduo reage agressivamente, querendo se livrar rapidamente da situação desconfortável.

Família

Aqui, temos as primeiras vivências importantíssimas sobre relacionamentos, acolhimento, afeto, dependência, amor.

O bebê nasce completamente frágil, vulnerável e totalmente dependente de algum cuidador para sobreviver. A extrema necessidade de calor, contato, alimento, colo é fundamental para o desenvolvimento físico/psíquico/emocional deste bebê.

Muito dos problemas neurológicos, do sistema nervoso e comportamentais são oriundos desta relação inicial e intima com os familiares e, principalmente, com a mãe.

Não há vinculo sem escuta, nem presença sem intenção.

Durante os nove meses da fase intrauterina houve colo, calor, proteção, silêncio e nutrição. Porém, a partir do nascimento, tudo passou a ser completamente diferente e desafiador, principalmente na relação com o mundo exterior, onde a vida é mais caótica, barulhenta, fria, agitada, violenta.

Assim, neste primeiro setênio de nossas vidas, somos como uma “tela em branco” sendo “pintada diariamente” e absorvendo a maioria dos ensinamentos distorcidos sobre afetos e relacionamentos vindos diretamente de nossos pais, família e sociedade.

O bebê busca intensamente o carinho, a pele, o leite e o calor. Porém, na maioria das vezes, essa mãe não desenvolveu uma estrutura psíquica-emocional adequada para lidar com tantas responsabilidades.

Sendo assim, o bebê recebe muitas situações desafiadoras que vão gerar respostas de dor, rejeição, abandono, medo. Ou seja: memórias traumáticas que tendem a ser levadas para a vida adulta e para os relacionamentos interpessoais.

Escola

Na escola aprendemos a vivenciar práticas em grupo, a nos socializar, a pertencer. Entramos numa instituição social com muitos modelos para serem seguidos e repetidos.

Aprendemos sobre metas, regras, limites, tarefas do dia a dia e a busca por resultados rápidos. Nos ensinam como devemos nos comportar, andar, comer, falar e, principalmente, como nos relacionar com outras crianças e adultos.

Aprendemos muito sobre ambição: passar de ano, ser o melhor da classe, tirar notas boas, ser bem-educado, executar tarefas mecânicas e enfadonhas, corresponder e agradar aos adultos para que sejamos aprovados e amados por eles.

A sala de aula não é só espaço de conteúdo, é espaço de encontro.

Com tantas tarefas e metas, a criança muitas vezes vai perdendo no decorrer do processo pedagógico. A “relação” com o momento presente, com o lúdico, com os colegas de classe. com o brincar, com a criatividade se perde, gerando uma desconexão do sentir, da criatividade, da espontaneidade que gera o encantamento de um novo momento e de uma nova relação.

Não aprendemos sobre presença, observação, escuta, respiração, relação etc.
Todo o sistema é condicionado com o intuito de nos levar a cumprir tarefas, performar e “chegar lá”, buscando resultados imediatos sem desfrutar e sentir a jornada.

A Jornada pelo desafio da Vulnerabilidade

O sólido vazio do amor líquido

Ao evitar a vivência da vulnerabilidade, nos perdemos em distorções, aprisionados nos labirintos dos medos mentais. Todos os transtornos mentais falam de um excesso de mecanismos de defesa para evitar dores que aconteceram no passado, que o indivíduo não quer repetir de forma alguma no presente.

Racionalização, evitação, rejeição, projeção, negação, repressão, regressão, sublimação e identificação são algumas das ferramentas mais usadas inconscientemente para evitar uma possível dor traumática que possa se repetir.

Todos nós, em maior ou menor grau, tivemos muitas experiências doloridas no passado e estas memórias ficam registradas em nosso corpo, mente, emoções e comportamentos.

Tudo isso fica registrado em nosso inconsciente, que vive fugindo de qualquer desconforto através do controle e da busca incessante de poder, o que impede a conexão com o sentir e com a vulnerabilidade.

A vulnerabilidade é o grande portal para todas as emoções. Dela decorre toda uma gama infinita de possibilidades ligada a sensações e sentimentos mais autênticos e profundos, que podem ser desenvolvidos nos relacionamentos humanos.

É um espaço para dissolução dos mecanismos de defesa e para expressão consciente de nossa criança interna que busca por amor, liberdade e segurança.

Telas

Onde a tela domina, a presença se apaga.

Nesta era contemporânea e digitalizada, um dos temas mais difíceis e viciantes que nos impede acessar a profundidade das relações humanas é o relacionamento tóxico com as telas, e a busca por respostas e prazeres imediatos.

Smartphones que têm tudo dentro de si, rede sociais que ditam regras e modelos de vida de sucesso, games cada vez mais realistas e viciantes, apostas infinitas para ganhar dinheiro fácil, pornografia fantasiosa.

Inteligência Artificial que estagna nossa criatividade, apps de tudo quanto é conteúdo, amores líquidos ilusórios, influenciadores e mentores de comportamentos de felicidade rápida, séries novelescas infindáveis, cursos que prometem tudo, dancinhas e afins… Toda esta gama de distrações nos hipnotiza e, assim, o relacionamento humano se deteriora em perdas de vínculos reais, conexões verdadeiras e profundas.

No Brasil, a média diária de tempo de tela é de aproximadamente 9 a 9h30 por dia (somando celular, computador, TV e outros dispositivos conectadas à internet). Esse número coloca o nosso país constantemente no topo do ranking mundial, oscilando entre o 2º e o 3º lugar dos países que mais passam tempo em frente às telas (atrás apenas de países como a África do Sul).

Este tempo se divide da seguinte forma:

· Celular/smartphone: representam a maior fatia, cerca de 5 a 5h30 diárias.

· Redes Sociais: do tempo total, aproximadamente 3h30 a 4 horas por dia são dedicadas exclusivamente a redes como Instagram, TikTok, WhatsApp e Facebook.

· Trabalho, estudo e streamings: o restante é dividido entre rotina profissional/acadêmica e entretenimento (YouTube, Netflix etc.).

Fica claro como a distração com as telas é gigantesca e o que hoje é chamado popularmente de TDAH nada mais é do que a “distração em excesso”, no sentido de fugir do desconfortável e do enfrentamento da realidade como está.

As relações presenciais com atenção e intenção são cada vez mais raras e são sempre disputadas com o estímulo e as tentações do celular, ao invés de olhos nos olhos com sentimento real, tato, afetividade, presença.

Os momentos de alguma espera, nesta era digital (como filas, trânsito, tempo livre, silêncio etc…) são sempre permeados por uma tela para nos fazer companhia, ao invés de nos relacionarmos com o ambiente à volta. É muito comum, até em encontros familiares à mesa, alguém com um celular na mão com muito mais interesse na tela do que na relação com os outros familiares.

Acabamos por aprender que o “outro” em nossas vidas, na maioria das vezes, se torna um objeto de companhia para nosso bel-prazer, acentuando assim a tendência cada vez mais narcisista da humanidade.

Prazer para aliviar a dor

A busca imediata do prazer para aliviar a dor e desconfortos tem sido um grande equívoco do uso de telas tão extenso. Quando estamos viciados em algo prazeroso não nos permitimos qualquer tipo de desconforto, e isso nos limita muito a possibilidade do inesperado, do diferente e de novos caminhos de reais prazeres.

Relacionar-se implica em sair do controle e em lidar com o desconhecido e o diferente, sem a expectativa de resultados imediatos e prazerosos.

O “amor líquido”, conceito desenvolvido por Zygmunt Bauman, se sustenta enquanto o “objeto” trouxer satisfação, leveza e prazer. E quando na relação começam a aparecer desconfortos e diferenças, o objeto já é descartado rapidamente e logo se inicia um outro relacionamento.

Quando a busca pelo prazer individual se torna o único propósito da relação, o outro deixa de ser um parceiro e passa a ser apenas um meio para um fim.

Enquanto mantivermos a atenção desconectada do momento presente, vamos vivendo ausentes de vida real, percebendo que a verdadeira falta que ocorreu no passado não será nunca preenchida. A insatisfação será cada vez maior pois, neste mundo virtual, não estamos presentes em nosso corpo e emoções, somente na “mente que mente”, buscando resultados imediatos.

Importante ressaltar aqui que qualquer forma de vício e dependência vem ligada a feridas traumáticas e a uma desconexão maior com a vida. O autoconhecimento, os processos terapêuticos, retiros e afins são ferramentas fundamentais para investigar a questão do uso continuo e tóxico de algum objeto viciante para escapar da dor.

Medo x Amor

Os transtornos de ansiedade em geral, cujas bases sempre estão ligadas ao medo de reviver situações traumáticas geram muito stress, destrutividade, autossabotagem, culpas e um grande abandono de si e de potências inerentes e, por consequência, da possibilidade de relacionamentos plenos e saudáveis.

Amor é presença
Medo é ausência

  • O amor é presença e ele só acontece no agora.
  • Quanto mais nos concentramos em viver o momento presente, mais vivemos o amor.
  • Quanto mais nos conectamos com o nosso sentir, mais vivemos o amor.
  • Quanto mais nos vulnerabilizamos, mais vivemos o amor.

O Retorno a Si Mesmo

A chave para resgatar relacionamentos saudáveis reside prioritariamente em olhar profundamente para a nossa verdade interior, retornar primeiro a si, para o autoconhecimento, para a autocompaixão, trazendo à consciência quem realmente somos.

E olhar para si implica em olhar para o outro. Através dos relacionamentos aprendemos muito sobre nós mesmos.

Os relacionamentos são o caminho mais saudável para nossa evolução. Estamos sempre aprendendo ao trocarmos uns com os outros. Somos espelhos, profundos, cheios de camadas , de potências , de sentimento, de vida pulsando em nós.

Quando nos permitimos relacionar realmente com os outros, resgatamos a vida em sua essência, resgatamos a vivacidade, a alegria, o sentido de viver. Através das relações vamos evoluindo nas virtudes como: humildade, aceitação, responsabilidade, abnegação, perdão, fé…

Afetos, sentimentos, emoções e relações surgem de forma espontânea quando estamos presentes, alimentando a consciência do “agora”.

  • Só podemos ter acolhimento verdadeiro com os outros se nos acolhemos
  • Só podemos ter amor verdadeiro com os outros se nos amamos.
  • Só podemos ter compaixão verdadeira com os outros se praticamos a autocompaixão.

 

Abraçando a Compaixão

Abrir espaço para ‘o sentir’ é romper com a ‘normose’, é escapar do automatismo e dos condicionamentos impostos pela sociedade e suas tradições. Ao permitirmos a vulnerabilidade, conquistamos um amor evoluído chamado ‘compaixão’.

A compaixão deve ser dirigida primeiramente a nós mesmos e, por consequência, aos outros, à Mãe Terra, à vida a nossa volta. Ela é a chave para reverter o curso de uma humanidade ainda em estágios primitivos de consciência para um nível evoluído de existência com mais propósito e sentido, onde as relações humanas são a base para essa evolução.

A solidão produz insegurança e infelicidade, mas o relacionamento, quando não consciente, gera o mesmo sofrimento.

Numa relação, você pode sentir-se tão inseguro quanto sem ela, ou até pior. Só mudam os nomes que você dá ao desconforto.

É fundamental trazermos a consciência de quem somos nós em cada relação, qual o sentimento que vivemos ali e qual o propósito dela acontecer…

O ponto de partida é você (mas o destino é o encontro).

Melhorar a relação consigo mesmo e com as pessoas ao seu redor não é um projeto com data de término. É um exercício diário de presença, escuta e ajuste de rota. Quando você passa a se tratar com a mesma gentileza, paciência e respeito que espera receber do mundo, a forma como você se conecta com o outro muda naturalmente.

Relacionamentos saudáveis não exigem perfeição; exigem consciência. Exigem a coragem de olhar para dentro, reconhecer os próprios limites e, ao mesmo tempo, estender a mão para construir pontes — e não muros — no convívio diário.

Comece pequeno. Escolha uma das práticas que vimos hoje para aplicar ainda esta semana:

  • Consigo: Faça uma pausa e pratique uma autocompaixão mais honesta quando algo der errado.
  • Com o outro: Pratique a escuta ativa no próximo diálogo, sem a urgência de preparar uma resposta imediata.

No fim das contas, cuidar da sua estrutura interna é o maior presente que você pode oferecer às suas relações.

Relações maduras não exigem perfeição; exigem presença, intenção e disposição para ajustar a rota constantemente.

Seja autêntico, , seja vulnerável, seja verdadeiro, seja você!

Bora melhorar as relações e a vida em si!

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Olá!

Escrevo sobre consciência, autoconhecimento e o caminho de volta ao Ser.

Sou terapeuta, facilitador em desenvolvimento humano, professor de meditação, músico e fundador do Espaço Integração, na Granja Viana.

Há mais de 26 anos atuo como terapeuta com pós-graduação em Psicologia Positiva e várias formações em desenvolvimento humano e inteligência emocional, acompanhando pessoas, casais e famílias em processos de transformação e despertar parta uma consciência mais evoluída.

Atualmente, estou terminando uma formação em Psicanálise e uma pós-graduação em Neurociência e Neuroplasticidade em Virtologia, ampliando minhas possibilidades de abordagem com embasamentos ainda mais modernos e transformadores.

Semanalmente compartilho aqui ensaios, insights terapêuticos e reflexões sobre a jornada do viver através de percepções, sentimentos, hábitos, relacionamentos, autoconhecimento, psicanálise, filosofia e afins.

A “Despertar” é um convite para você desacelerar, questionar e se reconectar com aquilo que realmente importa em sua vida!

Será uma enorme alegria que você possa desfrutar desses materiais através desta iniciativa.

Se este conteúdo fez sentido para você e quiser aprofundar essa conversa, atendo presencialmente e online.

Um grande abraço,

Maurício Bastos

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