O livre-arbítrio existe?

“Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-la de destino.” – Carl Gustav Jung

A Liberdade

Dentro da estrutura das leis que gravitam sobre a consciência do indivíduo, a liberdade é a mais preciosa conquista.

A verdadeira liberdade humana é a capacidade de reflexão crítica sobre as questões da vida e como respondemos criativamente a um estímulo em nossa direção.

Estamos limitados e presos quando vivemos condicionados às crenças, valores e princípios oriundos de nossa história familiar, cultural, religiosa, educacional e social.

Quando vivemos no piloto automático, na maioria das vezes numa zona de conforto – apesar de tanto desconforto – limitamos e reprimimos nossas potências, nossas expressões, nossas relações, nossa vivacidade.

Optamos por viver sem maiores critérios, sem discernimento, sem escolhas profundas. Levamos uma vida sem sentido, sem evolução, sem propósitos e sem consciência mas, por outro lado, com proteção, pertencimento, sobrevivência, prazeres rápidos e segurança.

Acabamos, na maioria das vezes, por escolher a segurança e abdicamos da liberdade.

Esse mecanismo vem totalmente de nosso inconsciente, ligado às estruturas do nosso cérebro mais primitivo: o tronco cerebral e o sistema límbico.

Vivenciamos, na maior parte do tempo, esse mecanismo de fuga e luta, somente reagindo e nos protegendo de qualquer adversidade.

Liberdade x Segurança

Existe uma negociação infinita na história das relações humanas: a busca por autonomia, independência, liberdade versus proteção, controle, segurança.

No estudo das necessidades humanas, o instinto de sobrevivência, proteção e pertencimento compõe nossa camada mais primitiva de necessidades. Se ela não for atendida, outras necessidades mais elevadas não serão preenchidas.

Nesta etapa mais primitiva da existência, temos uma tendência natural em viver com base na escassez, na falta, no desamparo e no medo. Com o medo vigorando, buscamos pertencer, sobreviver, competir, controlar.

A busca pelo controle é, em sua essência, uma busca por poder e a busca pelo poder vem da insegurança, do medo.

Vivenciar a vulnerabilidade na sociedade contemporânea ainda é um espaço desafiador que gera muita resistência na maioria das pessoas. Assim, a busca pela segurança é muito mais exigida do que a busca pela liberdade.

Livre-arbítrio

Livre Arbítrio

👉🏻 Se a neurociência diz que nosso cérebro decide antes de nós, o que resta da nossa liberdade?

👉🏻 Você realmente escolheu abrir este texto?

A resposta imediata é um “sim” confiante. Você viu o título, sentiu um vislumbre de curiosidade, moveu o dedo e clicou. No entanto, se colocássemos seu cérebro sob um scanner de ressonância magnética funcional alguns milissegundos antes dessa decisão, veríamos padrões de atividade neural prevendo sua ação antes mesmo de você ter a consciência de que iria clicar neste material.

Isso nos coloca diante de uma das contradições mais fascinantes da experiência humana: vivemos com a certeza visceral de que somos os autores das nossas vidas, mas a ciência e a filosofia insistem em nos lembrar de que a engrenagem por trás das cortinas é muito mais determinista do que gostaríamos de admitir.

Se nossas decisões dependem de processos inconscientes, onde ficam a liberdade, o livre-arbítrio e a consciência nesse equação?

Na ilusão do botão de play.

Em termos práticos: o cérebro decide primeiro; a consciência recebe a notificação depois. Será?

Se o inconsciente dá as cartas, o livre-arbítrio se torna um mito elegante. O filósofo Baruch Spinoza já antecipava isso no século XVII ao dizer que “os homens se julgam livres apenas porque estão conscientes de suas ações, mas ignorantes das causas pelas quais são determinadas”.

Somos como uma pedra arremessada no ar que, se tivesse consciência, acreditaria que está voando por vontade própria.

O erro de decretar o fim do livre-arbítrio com base na neurociência está em confundir início de ação com autoria existencial.

Mesmo que o impulso inicial para tomar uma atitude surja de redes neurais fora do nosso controle consciente, a consciência desempenha o papel de juiz.

Embora não tenhamos o “livre-arbítrio” para gerar o impulso inicial, temos o “livre-veto”: a capacidade consciente de interromper o sinal antes que ele se torne ação.

Por exemplo: podemos interromper pensamentos repetitivos e negativos, sensações e emoções tóxicas, hábitos automáticos, reações extremas e agressivas, desejos tóxicos.

“A verdadeira liberdade não é garantida pela satisfação dos desejos, mas sim pela remoção dos desejos.” – Epicteto

Ou seja, somos realmente livres quando colocamos limites e aprendemos a dizer “não”.

Do Inconsciente ao Consciente

A consciência não é o motorista que acelera o carro em cada milímetro do trajeto, mas sim o sistema de navegação e o freio de emergência. Ela é o espaço onde pausamos. É a capacidade de olhar para um impulso – a raiva, o desejo, o hábito automático – e perguntar: “Eu realmente quero seguir por aqui?”

👉🏻 O que sobrou da liberdade?

Se definirmos a liberdade como a capacidade de agir totalmente sem causas prévias – um poder quase divino de criar escolhas do absoluto nada, então o livre-arbítrio realmente não existe. Estamos limitados pela nossa biologia, pela nossa história, pelas crenças limitantes, pela cultura e pela física.

Mas essa é uma definição inútil de liberdade.

A verdadeira liberdade humana não é a ausência de influências, mas a capacidade de reflexão crítica.

Liberdade é a distância que a consciência consegue criar entre o estímulo e a resposta.

O condicionamento e os automatismos diários vêm de camadas do inconsciente que são desconhecidas de nossa razão e nos aprisionam.

A liberdade é o uso desse holofote, chamado consciência, para poder reescrever nossos padrões e posturas ao longo do tempo.

Você pode não escolher o pensamento que surge na sua cabeça agora, mas escolhe o que fará com ele nos próximos cinco minutos.

A consciência, portanto, não é apenas um subproduto passivo da evolução. Ela é o meio pelo qual a matéria aprendeu a questionar a si mesma.

Não somos totalmente livres, nem totalmente marionetes.

Somos arquitetos de um espaço intermediário – e é exatamente na fresta entre a nossa biologia e a reflexão crítica que a nossa humanidade acontece.

👉🏻 Como essa perspectiva se encaixa na forma como você toma suas decisões diárias: você se sente mais como o autor das suas escolhas ou como um leitor atento da sua própria mente?

A liberdade se diferencia do livre-arbítrio ao compreendermos que, enquanto a primeira tem sua expressão no mundo externo (ações, expressões, experiências), o livre-arbítrio é uma faculdade que vem de uma consciência interna a partir do autoconhecimento, discernimento e clareza vindos do Self.

Mesmo privados de liberdade, nós podemos exercitar o caminho do livre-arbítrio através da autorresponsabilidade.

A consciência do homem não é algo determinado mas, ao contrário, faz-se na materialização das escolhas e respostas diárias as situações da vida.

A consciência é o holofote que ilumina o automatismo.

A permissão interna para viver o desconhecido, o não controlável, o incerto e, assim, se surpreender diariamente com a vida como ela é, é um grande caminho para a libertação!

Você é o autor da sua história?

A “arte da escolha” é um grande exercício de liberdade na vida. Através dela, podemos caminhar em direção aos nossos propósitos essenciais e realizá-los, ou seguir o modelo vigente do inconsciente coletivo e sermos vítimas do sistema.

O autoconhecimento e a consequente autorresponsabilidade são chaves fundamentais para podermos desenvolver a arte da escolha com consciência e clareza.

Quando não assumimos o “escolher”, nós somos escolhidos pela vida e viramos coadjuvantes da história dos outros, sejam nossos pais, parceiros, chefes, amigos, sociedade etc.

A não escolha é uma escolha!

E, assim, seguimos num modelo condicionado a padrões e crenças pré-estabelecidas, sem questionar se determinada situação nos gera sentido, nos faz sentir…

O uso do livre-arbítrio, infelizmente, ainda é para poucos. É somente para aqueles que estão despertos para a autoria e protagonismo em suas vidas. Aqueles que assumem as suas escolhas e renunciam outras.

Níveis de Consciência e o livre-arbítrio

Na Virtologia, abordagem focada no desenvolvimento das virtudes e da sabedoria comportamental, a consciência é compreendida não apenas como um estado de alerta cerebral, mas como o grau de clareza, maturidade e autonomia com que um indivíduo percebe a si mesmo, o outro e o ambiente.

Os níveis de consciência funcionam como uma escala de evolução do ser humano. Cada nível reflete a forma como a pessoa processa a realidade, reage aos estímulos e utiliza suas forças internas (as virtudes) para fazer escolhas.

Assim, quanto maior for seu nível de consciência, maior será a possibilidade de usar a liberdade e, por consequência, o livre-arbítrio.

Toda escolha tem renúncias

A arte da escolha se origina numa permissão interna para viver novas experiências, sair do controle, abrir espaço para a vulnerabilidade e, assim, esperar o inesperado.

Desenvolver a autoria implica em escolher a direção, ritmo e caminho de seus passos, mesmo não tendo a clareza do resultado, mas confiando que a ação consciente “do hoje” propiciará frutos saudáveis para “o amanhã”.

Sou eu o autor de minha vida?

A qualidade das nossas escolhas depende, e muito, da percepção de quem somos e do que queremos nesta existência.

A atitude mais comum é nos precipitarmos em nos apresentar de modo fiel a uma “identidade pré-concebida” que acreditamos ser, ou mesmo “fingir” que somos o personagem que inventamos.

Temos dificuldade de improvisar, de viver situações inesperadas, diferentes e de deixarmos espaços livres para novos caminhos na vida – lugares onde novos caminhos neuronais (a neuroplasticidade), através do pensar, falar, sentir e agir, se tornam indispensáveis.

O Novo… uma possibilidade de livre-arbítrio

Exemplos de novas posturas: e se o tímido pudesse ser extrovertido pela primeira vez, o autoritário pudesse relaxar, viver sua vulnerabilidade e sair do controle e o canalha se emocionar e se apaixonar profundamente…

Quando vivemos várias realidades distintas e lidamos com uma ampla gama de situações e histórias, existe uma possibilidade de percebermos que muitas vezes nos moldamos às situações, sem a consciência clara que fizemos escolhas automatizadas.

A autossabotagem é um comportamento inconsciente que parte de uma percepção equivocada de autoengano e de momentos de autoabandono e autoesquecimento de quem realmente nós somos.

Atrás de cada postura e comportamento há uma tendência. Quando uma criança chora demasiadamente, pode haver uma tendência à carência. Por trás do nariz empinado, uma tendência ao orgulho.

👉🏻 O que então, estaria por baixo dessa base de tendências e condicionamentos?

Embora essa pergunta possa parecer filosófica, ela é o cerne de nossa insatisfação, de nossa instabilidade de energia e ânimo. É justamente por transitar de uma identidade à outra, sem consciência, que seguimos não vivendo a autoria das nossas escolhas.

Livre Arbítrio

Não é o “transitar” que nos aflige, e sim o nosso apego a cada personagem (“eu sou isso”) que nos coloca em crise cada vez que um deles se dá mal ou alguma situação termina. Quando, por exemplo, a/o namorada(o) nos abandona, sentimos no corpo a sensação do vazio, nos falta ar, sofremos.

A morte não é só do outro, mas principalmente daquele personagem que habitávamos e com o qual nos identificávamos – por exemplo, como sendo o/a “namorado(a)” da tal pessoa.

O livre-arbítrio acontece no momento que conseguimos responder conscientemente às situações desafiadoras, e não simplesmente reagir a elas.

Para compreendermos melhor a causa da insatisfação recorrente, ou seja, os desejos frustrados que vêm de uma mente identificada coma certos padrões mentais, precisamos também entender que estamos conectados à ânsia da completude, de algo que nos preencha totalmente, mas sem resultados realmente satisfatórios.

“Há duas maneiras de nos relacionarmos conosco: acreditar no que somos ou ver nossas faces como personagens de nós mesmos.” – Gustavo Gitti

Liberdade de sentir??

O ser humano, em sua grande maioria, não sente o que quer, mas sim o que “aprendeu” em sua existência sobre o “sentir” e também sobre as condições que o rodeiam. Reage às situações da vida de forma automática, numa mistura de ligeira consciência e condicionamentos, onde este último ocupa lugar predominante.

Acaba exercendo apenas os movimentos que lhe são permitidos pela sua mente dual: ou gosta ou não gosta e, assim, manifesta-se em conformidade com essas impressões.

Desidentificação

Quando assistimos um filme, sabemos que é só um filme, mas nosso corpo e emoções não: todas as glândulas se ativam, nos contorcemos, a respiração muda, a postura corporal se modifica, choramos, gargalhamos, nos movemos – ou seja, nos identificamos com o que está acontecendo.

Nossa energia está no processo de identificação; assim, vivenciamos a situação como se ela fosse real.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” – Jesus Cristo

O livre-arbítrio acontece através da liberdade de escolha, e no exemplo desta situação, nós praticamos a desidentificação, quando percebemos que este filme é apenas uma ficção, uma ilusão; não é uma realidade.

Se apenas escolhermos buscar a liberdade desidentificada, ela será estéril, sem energia, sem vida e impotente perto de nossos ânimos e emoções. O resultado será hesitação antes e culpa depois de cada momento.

Se escolhermos apenas nos jogarmos aos prazeres da vida (carpe diem), seremos presa fácil e, eventualmente, acabaremos aniquilados pela aparente concretude do mundo: ansiedade antes, frustração e insatisfação depois.

Entretanto, nossa história não precisa ser assim. Se escolhermos ser capazes de usufruir da energia da identificação e, ao mesmo tempo, agir com a liberdade da desidentificação, estaremos utilizando o dom do livre-arbítrio com excelência.

“A vida é uma combinação de destino e livre-arbítrio.
A chuva é o destino, a possibilidade de se molhar ou não, é o livre-arbítrio.”
– Sri Sri Ravi Shankar

Autoengano e a ilusão nas escolhas

Quando nos relacionamos vemos, muitas vezes, que os outros encenam mentiras para nós, na tentativa de eles mesmos reiterarem suas próprias ilusões. Sendo assim, somos parte de seus processos de autoengano, como se eles pensassem “se ele acreditar que eu sou assim, então eu acreditarei também”.

Muitas vezes, vamos caminhando em escolhas sabotadoras e ilusórias. Nos enganamos e nos distraímos em situações externas.

É deste encontro especial com o consciente que surge a desilusão, ou seja, desidentificar-se da ilusão, sair do autoengano, da autossabotagem. Desta forma, se desenvolve a percepção real e curadora daquele que percebe que, antes do objeto, existe um sujeito (o Eu).

👉🏻 E quem é este sujeito apegado ao objeto?

A liberdade do Ser, o verdadeiro caminho para o livre arbítrio

A liberdade do Ser não é o que se expressa ou o que se resguarda. Ela é pura abertura, mobilidade e espacialidade, sem tendências e nem bases. Assim que pararmos de acreditar em nossas próprias crenças, dogmas e decisões, abdicando do controle e das certezas, estaremos prontos para oferecer isso aos outros com nossa simples presença.

“Viver além de si mesmo” é também convidar os outros para que saiam de seus casulos, para que andem sem bases ou tendências pelo mundo e possam fazer uso da liberdade da escolha consciente: o livre-arbítrio.

A aproximação da felicidade está intimamente ligada a qualidade das nossas escolhas, através da evolução da consciência.

Escolha a consciência e, a partir dela, a liberdade!


Escrevo sobre consciência, autoconhecimento e o caminho de volta ao Ser.

Sou terapeuta, facilitador em desenvolvimento humano, professor de meditação, músico e fundador do Espaço Integração, na Granja Viana.

Há mais de 26 anos atuo como terapeuta com pós-graduação em Psicologia Positiva e várias formações em desenvolvimento humano e inteligência emocional, acompanhando pessoas, casais e famílias em processos de transformação e despertar parta uma consciência mais evoluída.

Atualmente, estou terminando uma formação em Psicanálise e uma pós-graduação em Neurociência e Neuroplasticidade em Virtologia, ampliando minhas possibilidades de abordagem com embasamentos ainda mais modernos e transformadores.

Semanalmente compartilho aqui ensaios, insights terapêuticos e reflexões sobre a jornada do viver através de percepções, sentimentos, hábitos, relacionamentos, autoconhecimento, psicanálise, filosofia e afins.

A “Despertar” é um convite para você desacelerar, questionar e se reconectar com aquilo que realmente importa em sua vida!

Será uma enorme alegria que você possa desfrutar desses materiais através desta iniciativa.

Se este conteúdo fez sentido para você e quiser aprofundar esta conversa, estou também disponível aos atendimentos individuais de uma forma presencial ou online.

Um grande abraço,

Maurício Bastos

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