Vício em satisfação gera insatisfação

Para compreendermos melhor a causa de uma insatisfação recorrente, é fundamental percebermos como anda a nossa mente emocional. Qual a qualidade dos pensamentos, emoções e sensações que estamos vibrando em nosso dia a dia?

A mente mais “ordinária e comum” é faminta e ansiosa e, enquanto não praticarmos a des-identificação e o desapego de certos padrões mentais e emocionais, estaremos sempre conectados à ânsia da completude, de algo que nos preencha, que seja vivido intensamente (mesmo que seja em um momento apenas) e nos realize naquilo que esperamos ansiosamente: realizar os desejos imediatamente.

O desejo vem da falta e a falta simboliza o “desamparo aprendido”.

Quando realizamos aquilo que desejamos, nos sentimos satisfeitos e preenchidos momentaneamente.
Porém, depois de algum tempo, já caímos na falta novamente, pois a vivência da realização do desejo não nutre realmente a falta. Assim, retorna a insatisfação e a frustração cada vez mais presente e profunda.

 

É fundamental refletirmos sobre nossos desejos e ansiedades e quais as faltas, medos, dores e vazios de nossa história que queremos preencher através deles.

“Perguntinha fundamental:
Você realmente quer aquilo que deseja?”

 

Afinal, por que nunca nos satisfazemos?

A insatisfação é uma característica que se encontra na origem do desenvolvimento humano. Viemos em nosso nascimento com uma história de uma profunda vulnerabilidade: desamparados, carentes, frágeis, sem sustentação, sem consciência.

Buscamos inicialmente sobreviver, pertencer, sermos nutridos, sermos cuidados, sermos amparados amados… mas será que tivemos todas estas vivências plenamente?

Certamente que não e, destas inúmeras situações não realizadas, surgem profundas memórias no corpo, na mente e nas emoções, as quais reprimimos inconscientemente no decorrer da vida. Desta forma, nosso ego inconsciente busca vorazmente, através dos desejos, preencher as faltas que não serão preenchidas, o que gera sempre insatisfação e frustração.


Primeira vivência de satisfação- prazer para aliviar a dor

O primeiro contato do bebê com o peito materno (fase oral) é muito mais do que um ato biológico de sobrevivência: é a fundação da vida psíquica e o nascimento do desejo humano.

Diante do desamparo absoluto e do desconforto avassalador da fome, da dor e do medo, a experiência do mamar surge como um alívio quase místico, onde o leite morno não apenas preenche o vazio do estômago, mas acolhe a totalidade do ser.

Esse instante inaugural – em que a tensão da necessidade se dissolve no calor da pele, no ritmo da sucção e no sabor do leite – fica registrado na memória como a primeira vivência de satisfação: o prazer para aliviar a dor.

É a partir desse encontro que o psiquismo cria sua primeira marca inapagável: o traço cinestésico do prazer. A partir de então, quando a fome (desconforto) voltar a apertar, a mente do bebê não buscará apenas o alimento físico, mas a reconstituição mágica daquela sensação de plenitude original, desenvolvendo o ato de ansiar, desejar e fantasiar.

O leite nutre o corpo, mas é o fantasma desse primeiro abraço e contato intenso que passa a mover o desejo humano pela vida afora, fazendo-nos eternamente sedentos por reencontrar aquela satisfação primordial de várias formas: nos relacionamentos, nos prazeres da vida, nas artes, nas pequenas doçuras do cotidiano, entre outras.

Quando adolescente, os desejos só se ampliam em conjunto com a ansiedade e o imediatismo. Desejamos conquistas em vários níveis: prazer, poder, controle, sucesso, reconhecimento, satisfação, ganhos em jogos e competições, escapismos e distrações de problemas e situações desconfortáveis etc.

Achamos que o desejo é um direito intrínseco e pleiteamos por isso o tempo todo. Começamos a desenvolver a perigosa ligação entre prazer e felicidade.

Nossa “mente e corpo inconsciente” ficam alternando entre:

Aversão ao desconforto/ dor
e
Apego ao conforto /prazer

Quando adultos, os hábitos, comportamentos e vícios já estão mais sedimentados e se materializam de várias formas na busca incessante pela satisfação: conquistas materiais, poder, sucesso, status, drogas prazerosas, pornografia, games, relacionamentos apaixonantes, sexo, consumismo desenfreado, entre outros.

Viver é desejar…

O desejo faz parte de nossa natureza humana, e é completamente normal desejar.

Até no nosso último suspiro de vida, também teremos desejos. Na verdade, não há nada de errado em ter prazer ou desejos. O desvio acontece quando nos identificamos com o desejo, através do apego, e ao invés de termos o domínio da situação, nos tornamos escravos e dependentes deste objeto do desejo.

Por exemplo: ao obtermos algo que desejamos, ficamos felizes. A realização deste desejo é a idealização de uma experiência de felicidade, mas também um apego a sensação gerada. No entanto, tudo é impermanente, e logo esta experiência e esta sensação terão um fim.

Ficamos, então, presos a uma roda viva de:

Falta- desejo- satisfação momentânea- insatisfação- frustração- falta

Falta- desejo- satisfação momentânea– insatisfação- frustração- falta

…

“I can’t get no satisfaction…
Cause I try and I try and I try and I try…”
The Rolling Stones

Acolher e aceitar o “aqui e agora”, assim como ele está, é para um ego inconsciente inaceitável. A “mente orgulhosa” nunca está no momento presente, ela somente usa o presente para chegar no momento futuro e conquistar o objeto do desejo para se saciar.

 

Saúde Mental e os Desejos Insatisfeitos

A ansiedade é o maior distúrbio mental existente nos dias de hoje, onde o indivíduo é criado e educado para as conquistas e resultados imediatos correndo em busca de um ideal de felicidade e prazer rápido e fugindo dos desconfortos e dores do dia a dia.

Já a depressão em muitos casos é decorrente de ilusões, frustrações, insatisfações na busca por preencher desejos que não se completam.

O burnout é oriundo, muitas vezes, de uma busca incessante e recorrente exaustivamente a realização de desejos que não são preenchidos.

Os vícios, hábitos e compulsões são escapismos intensos oriundos de dores profundas que se tornam desejos compulsivos insatisfatórios.

Objetos do Desejo

Você realmente quer aquilo que desejas?

Estamos na era de Síndrome de Informação Crônica e, com ela, vem uma imensa oferta sedutora de conteúdos que buscam alimentar a “mente ansiosa e faminta” e, consequentemente, o desejo e a busca por satisfações infindáveis:

  • Doces e salgados, cada vez mais saborosos e viciantes
  • Drogas, cada vez mais imediatas com sensações orgásticas e relaxantes
  • Relacionamentos intensos, viscerais e apaixonantes
  • Sexo, pornografia, prostituição, libertinagem, orgasmos alucinantes
  • Objetos materiais que trazem poder: carros, casas, relógios, roupas, viagens
  • Profissões e cargos que geram status, regalias e poder
  • Viagens paradisíacas que vendem muita felicidade satisfação
  • Mídia social que traz reconhecimento de seguidores e likes

Quando as pessoas não encontram um profundo significado para existir, elas se distraem com prazeres momentâneos. Viktor Frankl

 

Prazer = felicidade?

Com todas as facilidades do mundo moderno, os padrões de satisfação se elevaram demais e a nossa exigência da realização do desejo (pseudo-felicidade) aumentaram drasticamente.

Todas essas facilidades (e não felicidades) também nos permitem fazer muitas escolhas ao mesmo tempo. Ou seja, sempre queremos mais e mais (buscar mais satisfação, pois nunca é o suficiente).

É desenvolvida uma idéia ilusória que quanto mais prazer você tiver,
mais feliz você será!

Porém, cada escolha traz renúncias. Só que, no mundo atual, para cada escolha que fazemos, renunciamos a centenas de outras.

O ego inconsciente não quer perder nada! Quer ter o direito à tudo. E isso gera muita insatisfação, pois nunca está bom o suficiente, sempre existe a possibilidade de ter mais….

“A satisfação é uma ilusão momentânea de felicidade…”

Vício

A busca por satisfação tende a tornar-se viciante e crônica.

Quanto mais eu desejo, mais eu anseio, mais eu crio expectativas.

Se não realizo o desejo, me frustro profundamente.

Se realizo o desejo, tenho um momento rápido de prazer; porém, logo vem o anseio de “quero mais”.

Hábitos operam no piloto automático através de três fases:
Gatilho – Rotina – Recompensa.

1. Gatilho (Pista): É o estímulo inicial que avisa o cérebro para entrar no modo automático e indica qual hábito usar.

2. Rotina (Ação): O comportamento em si (físico, mental ou emocional) que é executado automaticamente sem consciência.

3. Recompensa: O benefício ou sensação de alívio/satisfação obtido ao final, que reforça o circuito no cérebro para que o hábito seja repetido no futuro.

 

Exercício de auto observação diária:

Identifique o Gatilho: Descubra o que dispara o comportamento (um horário, um estado emocional, um local ou uma pessoa).

Traga para o Córtex Pré-Frontal: Você precisa pausar por 5 a 20 segundos quando o gatilho acontecer. Respire fundo algumas vezes – inspire e expire lentamente e prolongadamente e nomeie o que está sentindo. Traga consciência para o estado interno. Essa interrupção força a atenção a migrar para o córtex pré-frontal, abrindo a janela de plasticidade.

No caminho da vida mundana e ordinária, você será sempre movido pela insatisfação, pelo desejo e pelo piloto automático, instalado em seu cérebro, sempre focando no amanhã.”

Buda Sidarta Gautama

 

Caminhos de consciência e transformação

O primeiro passo para tratar a “insatisfação crônica” é admitir o problema e querer de fato mudar o padrão de comportamento. A partir daí, também é recomendável:

  1. Aquietar a mente: meditação, respiração, yoga, práticas aeróbicas.
  2. Buscar apoio terapêutico: tratar as causas do vazio, do trauma, da dor e da escassez.
  3. Focar no essencial: deixe de querer sempre mais. Renuncie a desejos. Aprenda a detectar o que é realmente essencial e o que te faz vibrar. Aquilo que é um simples desejo, não se identifique, desapegue.
  4. Estabelecer metas coerentes e propósitos verdadeiros com sua trajetória e valores pessoais, evitando fazer comparações com a vida alheia.
  5. Criar o hábito de agradecer: praticar a gratidão pelo que já se vive e se tem.
  6. Olhar para trás: revisitar sua história e narrativa de como você era, e vivia antes, e como está e vive agora; é fundamental valorizar os progressos.

 

Qual a sua relação com desejo?

Como percebemos, a questão primordial é entender qual a relação que você tem com o desejo. Você se identifica/se apega? Ou, o oposto, você tem aversão/repressão?

Quando não estamos presentes no “agora”, a mente humana busca caminhos inventivos de satisfação. Caímos na ilusão, projeção, fantasias e ideais, e o desejo é a ferramenta preferida para escaparmos da realidade.

 

Medo x Desejo

Junto ao desejo, muitas vezes, concomitantemente, vem o medo.

A mente humana inventa muitos medos: do fracasso, da perda, da solidão, da escassez, da dor, da rejeição, do vazio, da morte, etc. Uma forma de escapar desses medos é nutrir e se apegar aos desejos.

Muitas vezes, o desejo vem para suprir o desconforto destes medos.

Você realmente quer aquilo que desejas?

 

Outra opção mais criativa: observar o desejo

Quando estamos mais atentos e presentes no “aqui e agora”, temos a possibilidade de estarmos mais observadores dos pensamentos, sentimentos e emoções que nos rodeiam. Dessa forma, fica mais perceptível descobrir qual a natureza do desejo e como nos relacionamos com ele.

Fique atento: na prática da auto-observação de um hábito já experienciado várias vezes, é fundamental observar, se este hábito desejado nos traz sentido, saúde, paz, ou, se ele é tóxico e nocivo e pode estar se transformando em um vício.

Se, em meio à intensidade do desejo, você simplesmente relaxar, sem remover sua atenção, aquele espaço da mente desenvolve a sabedoria discriminativa. Você não abandona o desejo, apenas desperta para uma percepção mais ampliada e consciente.

A “mente extraordinária” está focada no despertar da consciência. É uma mente observadora e desapegada com uma visão ampliada do desejo. As emoções e posturas associadas são: fé, compaixão, amor, graça, entre outros.

Mente Ordinária: transita entre desejo e o medo – inconsciente – estado de piloto automático

Mente Extraordinária: transita com a percepção ampliada – estado consciente

 

Os tipos de desejos

  • Tornar-se algo maior (ser alguém importante)
  • Conquistar algo (chegar lá)
  • Satisfação em vários níveis (prazeres)
  • Consumismo obsessivo
  • Ser desejado(a)
  • Reconhecimento (elogio, notoriedade, diferença)
  • Sucesso (fama, popularidade)
  • Poder (controle, domínio)
  • Status (estar acima, superioridade)
  • De largar situações desconfortáveis (aversão, raiva)
  • Destrutividade em vários níveis (instinto de morte)

O caminho para dissolver o desejo não é sobre se identificar com ele,
é sim sobre “reconhecê-lo como tal” …

 

Desejo # Vontade

É muito importante diferenciarmos os conceitos da fugacidade do desejo, da força da vontade.

  • O desejo vem do Ego Inconsciente, busca satisfação, prazer imediato, escapismo; é transitório e descartável. Traz preenchimento momentâneo, depois denota o vazio.
  • A vontade vem da Essência, busca conexão com o propósito, o sentido e a verdade. Traz completude e conexão, tem força.

 

Livre Arbítrio (o desapego do desejo)

Aqui, a grande possibilidade de libertar o apego ao desejo. A liberdade da escolha é um caminho de transcendência e transformação fundamental.

O autoconhecimento e a autorresponsabilidade nos trazem a autoria de nossas vidas, e desta forma, através do livre arbítrio, os desejos e apegos não mais controlam as nossas ações.

O desapego do desejo gera a não identificação e a não necessidade da sensação de satisfação. Cria-se o despertar para uma percepção consciente de que este desejo não irá nutrir o que realmente precisa ser nutrido.

“A verdadeira liberdade não se obtém pela satisfação dos desejos, mas sim pela destruição dele.”

Epciteto (filosofia estoica)

Bora praticar?


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Escrevo sobre consciência, autoconhecimento e o caminho de volta ao Ser.

Sou psicanalista, terapeuta, facilitador em desenvolvimento humano, professor de meditação, músico e fundador do Espaço Integração, na Granja Viana.

Há mais de 26 anos atuo como terapeuta com pós-graduação em Psicologia Positiva e várias formações em desenvolvimento humano e inteligência emocional, acompanhando pessoas, casais e famílias em processos de transformação e despertar parta uma consciência mais evoluída.

Atualmente, estou terminando uma pós-graduação em Neurociência e Neuroplasticidade em Virtologia, ampliando minhas possibilidades de abordagem com embasamentos ainda mais modernos e transformadores.

Semanalmente compartilho aqui ensaios, insights terapêuticos e reflexões sobre a jornada do viver através de percepções, sentimentos, hábitos, relacionamentos, autoconhecimento, psicanálise, filosofia e afins.

A “Despertar” é um convite para você desacelerar, questionar e se reconectar com aquilo que realmente importa em sua vida!

Será uma enorme alegria que você possa desfrutar desses materiais através desta iniciativa.

Se este conteúdo fez sentido para você e quiser aprofundar essa conversa, estou também disponível aos atendimentos individuais de uma forma presencial ou on-line.

Um grande abraço,

Maurício Bastos

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