A Reatividade que nos cega

Nesses últimos meses tenho percebido em meus atendimentos individuais e de casais, principalmente em função da política eleitoral, o aumento das discórdias nas relações humanas: casais em conflito, pais e filhos em brigas constantes, famílias se afastando, sócios em disputa, um aumento visceral de discursos de ódio e fúria por todos os lados.
A Guerra em nossa volta !

Se observarmos o cenário ao nosso redor sem o véu das nossas reações automáticas, o que realmente enxergamos?

  • Enxergamos uma sociedade profundamente exausta e frustrada, com discursos de ódio, cheio de angústia num excesso de aversão e destruição em relação a outra polaridade, e uma idolatria à ideologia em relação a polaridade identificada.

De um lado, a Esquerda; do outro, a Direita. Duas trincheiras fortificadas por narrativas, dogmas e uma necessidade desesperada de “estar certo”. Mas, quando olhamos por trás do grito, do cancelamento, da agressão verbal nas redes e da violência cotidiana que cresce a passos largos, o que encontramos dos dois lados da moeda?

  • Frustração, angústia, fúria e um medo visceral do futuro, em cada uma das polaridades.

A polarização política atual deixou de ser um debate saudável sobre visões de mundo; tornou-se uma neurose da convivência. Transformou-se em uma polaridade tóxica alimentada por discursos de ódio, julgamento, críticas ao outro lado, oriundas do medo.

Mas a pergunta essencial que precisamos nos fazer, enquanto seres humanos que buscam o autoconhecimento e a evolução, é:
A serviço do que estão a nossa raiva e o nosso ódio? Vão solucionar algo?

A Ilusão da Projeção e os Níveis Baixos de Consciência

Na Psicanálise e na Psicologia Integrativa, aprendemos que aquilo que mais nos incomoda, irrita e desperta repulsa no outro lado é, muitas vezes, o espelho não trabalhado das nossas próprias sombras reprimidas.

Quando não temos espaço interno para sustentar nossas próprias imperfeições e medos, nós os projetamos para fora. O “outro” vira o depósito do nosso lixo emocional. É muito mais fácil demonizar quem pensa diferente de nós do que olhar para a nossa própria vulnerabilidade. O “inimigo político” se torna muitas vezes, a personificação de tudo o que rejeitamos em nós mesmos.

Isso nos aprisiona em níveis primários, instintivos e reativos de Consciência. Quando agimos dominados pela Ignorância e pela Reatividade Pura, estamos operando no nível da sobrevivência instintiva e primitiva e de um ego distorcido.

A Mente Reativa não quer dialogar; ela quer destruir para se sentir segura.
É o triunfo da primitividade:

Se você não concorda comigo, você é meu inimigo.
Para que o meu lado vença, o seu lado precisa ser exterminado.

Cadê nossa Humanidade?

Essa mecânica do inconsciente nos anestesia — puro instinto de sobrevivência de um estado primitivo de consciência. Esquecemos que, do outro lado do espectro ideológico, existe uma pessoa, um Ser Humano, que também sente dor, que também busca segurança e que também deseja um mundo melhor — mesmo que a partir de caminhos totalmente distintos e, por vezes, equivocados.

  • Você realmente está escolhendo através de seu Livre Arbítrio e Consciência ou está seguindo um modelo de seu meio em que vive, baseado em crenças e dogmas pré-estabelecidos?

Expectativa, Frustração e a Raiva

É de fundamental importância revisitarmos o nosso grau de expectativas em relação ao governo e as instituições e, ao mesmo tempo, avaliar o que estamos fazendo, em nossa individualidade, pela nossa sociedade.

O quanto esperamos que um presidente seja nosso herói, mestre, provedor ou pai?

Na ausência de inspirações reais e verdadeiras, o quanto projetamos na figura de um presidente a expectativa ilusória de ser o “Salvador da Pátria”?

Quanto maior a expectativa e o anseio por um resultado idealizado, maior será a chance de uma grande frustração. Como consequência, surgem a raiva, a fúria e o ódio expressos em ação: a violência e a guerra.

Algumas perguntas pertinentes para reflexão:

1. O que realmente esperamos de um governo?

2. Estamos olhando para a sociedade em geral ou somente para as nossas questões individuais e pessoais?

3. Qual é a nossa parcela de responsabilidade individual para deixar nosso país e nosso planeta com uma vida mais plena, saudável e em paz?

4. O quanto em nossa vida pessoal e em nossos relacionamentos mantemos aspectos ligados à mentira, hipocrisia, “jeitinho”, corrupção, ódio e arrogância?

O Olhar da Virtologia: Do Reagir ao Cultivar

A Virtologia nos lembra que virtudes como Humildade, Responsabilidade, Individuação e Abnegação não são apenas conceitos bonitos ou utopias poéticas. Elas são competências humanas e emocionais que precisam ser treinadas e praticadas diariamente para dissolver aspectos tóxicos da personalidade.

Diante do Caos:

A Mente Reativa pergunta: “Como posso atacar mais forte?”

A Mente Criativa pergunta: “O que falta em mim para que eu não precise agredir?”

Neste ponto, trabalhamos a Neuroplasticidade destas Virtudes. Criamos habilidades neurais para mudar padrões de pensamento, comportamento e ações diárias com o propósito da paz e da harmonia coletiva.

A violência no mundo nada mais é do que o sintoma de um analfabetismo afetuoso.

Quando não sabemos lidar com a frustração, convertemos a nossa impotência em agressão. Mas continuar alimentando essa fogueira só consome a nossa própria saúde mental, a fluidez dos nossos relacionamentos e a nossa paz de espírito.

A verdadeira revolução acontece de dentro para fora: do indivíduo para o grupo, do inconsciente/consciente individual para o inconsciente/consciente coletivo.

Maktub, Fé e o “Amor Fati”

Outra virtude fundamental para resgatarmos nossa Humanidade é a virtude da Fé — não como projeção de um Deus absoluto ou barganha por um resultado específico, mas como uma prática profunda de entrega, confiança e Amor Fati (o amor ao destino).

Inspirado pelos estoicos e por Friedrich Nietzsche, o conceito de “Amor Fati” nos convida a não apenas tolerar, mas abraçar e amar a realidade como ela se apresenta, com suas incertezas e imperfeições.

É saber que não temos controle sobre quase nada “lá fora” — seja o resultado das urnas, a opinião do outro ou os rumos da história.

Quando praticamos a entrega consciente de que “o que tiver de acontecer, acontecerá” (Maktub), paramos de guerrear contra os fatos e passamos a focar no único espaço em que temos poder real: a forma como escolhemos responder a eles.

O “Amor Fati” transforma a resistência inútil em sabedoria, presença e ação virtuosa.

O Convite para a Despolarização Interna

Como bem escreveu o poeta Rumi:
“Para além das idéias de “Certo e o Errado” existe um campo e eu me encontrarei com você lá.”

Para sairmos dessa armadilha coletiva e expandirmos a percepção do SER, é preciso Desapego e Coragem para fazer uma transição de estados de Consciência:

1.Da Reação para a Auto-observação Consciente: Antes de digitar um comentário agressivo ou julgar alguém, pare e respire. Pergunte-se:
“De onde vem a minha necessidade de estar certo?
É da busca pela verdade ou da necessidade do meu ego em ter razão?
”

2.Da Arrogância para a Humildade: Reconheça que a nossa perspectiva é apenas um fragmento da realidade. Ninguém detém a verdade absoluta. A Humildade é o único terreno onde a escuta genuína consegue germinar.

3.Do Julgamento e Preconceito para o Amor Integrativo: Amor não significa concordar com tudo. Amor é a capacidade de enxergar a humanidade no outro, mesmo quando discordamos profundamente do seu ponto de vista. É a escolha consciente de estancar a corrente do ódio.

Um Exercício de Presença

Nas palavras e na prática da Terapia Integrativa, a mudança no mundo nunca acontece “lá fora”, mas na qualidade da presença que sustentamos “aqui dentro”.

Seja a mudança que você quer ver no mundo.” — Mahatma Gandhi

Por um instante, feche os olhos.

Traga a atenção para a sua respiração.

Sinta o ar que entra e o ar que sai.

Nenhum lado da política é dono do ar que você respira. O oxigênio não escolhe lado ideológico; ele simplesmente nutre a vida sem julgamentos.

Quando nos desconectamos das nossas certezas absolutistas e nos conectamos com a nossa essência amorosa, a polaridade perde a força. O ódio silencia. E abrimos, finalmente, espaço para a cura que tanto buscamos.

Que possamos, hoje, escolher a paz sobre o conflito, a humildade sobre a arrogância, e a consciência sobre a ignorância reativa.

.A Humanidade não pode ser curada do lado de fora: a cura do mundo é sempre o transbordamento da restauração do indivíduo- Victor Frankl

E você?
Tem se percebido reativa(o) ou observadora(o) diante das polaridades do seu dia a dia?
Como o exercício de aceitar a realidade (Amor Fati) pode mudar sua forma
de se relacionar com as diferenças hoje?

Respire amplo. Desperte para o teu Ser, para o teu Servir..

Vote Consciente!!

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Escrevo sobre consciência, autoconhecimento e o caminho de volta ao Ser.

Sou psicanalista, terapeuta integrativo, facilitador em desenvolvimento humano, professor de meditação, músico e fundador do Espaço Integração na Granja Viana-SP.

Há mais de 26 anos atuo como terapeuta com pós-graduação em Psicologia Positiva e várias formações em desenvolvimento humano e inteligência emocional, acompanhando pessoas, casais e famílias em processos de transformação e despertar parta uma consciência mais evoluída.

Atualmente, estou terminando uma pós-graduação em Neurociência e Neuroplasticidade em Virtologia, ampliando minhas possibilidades de abordagem com embasamentos ainda mais modernos e transformadores.

Semanalmente compartilho aqui ensaios, insights terapêuticos e reflexões sobre a jornada do viver através de percepções, sentimentos, hábitos, relacionamentos, autoconhecimento, psicanálise, filosofia e afins.

A “Despertar” é um convite para você desacelerar, questionar e se reconectar com aquilo que realmente importa em sua vida!

Será uma enorme alegria que você possa desfrutar desses materiais através desta iniciativa.

Se este conteúdo fez sentido para você e quiser aprofundar essa conversa, estou também disponível aos atendimentos individuais de uma forma presencial ou on-line.

Um grande abraço,

Maurício Bastos

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